quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Estátua de São Francisco tira cocô do olho

Um sol de estalar mamonas e Francisco continuava em pé com os braços cruzados e as mão viradas para cima. Não sei se rogando preces ou olhando para cima tentando adivinhar quando vai chover.

Assim o vejo todos os dias. Mas, hoje, aconteceu o impossível: A estátua de São Francisco lá na praça se mexeu. Eu vi!
Foi quando um bem-te-vi, desses grandes, pousou-lhe na testa e fez um cocozão bem no olho direito. Bem na hora em que eu olhava pra Francisco. Ele olhou de cima, baixando um dos olhos e, pensando que não havia ninguém olhando, fez bico com a boca, mirou no pássaro e assoprou para espantar o bichinho, que voou com jeito de quem estava aliviado de um peso enorme.
Mas o cocozão ficou, tampando um olho do Santo.
Francisco continuou incomodado e, ainda achando que estava sozinho na praça, mexeu o braço direito e com a mão e limpou o serviço do passarinho, jogando no chão a meleca que lhe impedia de ver direito.
Olhei dos lados e não vi mais ninguém para que eu não pudesse mentir sozinho. Não havia outra testemunha. Só eu e Francisco sabemos que ele se mexeu para tirar um cocô de bem-te-vi. Até eu me mexeria se fosse uma estátua cagada.
Num rompante de surpresa e maravilhado com algo tão inusitado e impossível até aquele momento que só eu vi, gritei para a imagem:
— Ô Francisco! Eu vi tudo, mas só consegui fazer uma foto. Já pensou eu filmando isso? Você não faz de novo?
Foi quando ouvi uma voz:
— Falando sozinho, moço?
Era uma senhora que passeava com um urubu no ombro e um macaco amarrado numa cordinha.
De nada adiantaria contar a história pra uma maluca. Me virei e dei um passo para sair, quando ouvi a velha dizer:
— Viu que doido, Chiquinho? É cada um que me aparece...
Fui embora. Vai que o bem-te-vi me caga também...

Mapa pra lugar nenhum

Sempre carrego num bolso um mapa que não leva a lugar algum.

Já cansei de percorrer os caminhos que ele assinala, mas não me canso de insistir nos seus roteiros.

Embora eu saiba como termina cada destino, teimo em insistir, cada dia em uma rota, embora seja a mesma de outras vezes.
Repetir os caminhos não me fazem mais tolo, nem significa que sou teimoso. É apenas a única saída por não haver outra opção, a não ser os mesmos caminhos de sempre.
Já me disseram que a vida é assim mesmo. Eu não acredito, por isso tento me fazer crer que possa haver algo novo no depois de agora.
Talvez a novidade possa surgir na próxima esquina. Pensar nisso é o único remédio que encontrei para fugir da mesmice do ‘todo dia a mesma a coisa’.
É possível que, em alguma curva, exista alguém com um mapa que me leve a algum lugar que me faça melhor. Mas precisa ter destinos que eu nunca tenha ouvido falar, porque dos que já ouvi, todos são chatos e estão no meu mapa de bolso, incluindo o cemitério, o céu e o inferno.

Não sei

Não sei você, mas eu tenho um monte de perguntas.

Para cada uma delas, dois montes de não sei.

Em cada não sei, três não vi e para cada um desses, quatro sei lá.

De um lado ainda tem dezenas de talvez e, do outro, duzentos quem sabe?

No fundo, é só uma pergunta: por quê?

No raso, são mais duas: quando e onde?

Mas sempre levo de carona uns cinco Como?

Claro que não esqueço uns dois quais e uns cinco quem.

Tem quem se preocupa com quanto. Mas eu acho mais bonito um não sei, bem grande, por isso tenho dois montes.

Quem sabe, talvez, alguém tenha algo do mesmo tamanho para trocar. Pode ser um é possível. Esse anda em falta e no momento não tenho nenhum no estoque.

Só não me venha com sei lá, porque isso é o mesmo que não sei. Coisa que já tenho dois montes.

Essa eu já sabia

Sabe aquele jornal que nunca traz nada que você já não esteja sabendo? Assim também são aquelas pessoas que nunca lhe somam nada. Convivem com você, estão todo tempo ao seu lado, usam tudo o que você compartilha com elas, mas nunca retribuem. Ao contrário, quando abrem a boca é para dizer que nada sabem, espalhando no ambiente uma vastidão de nada. São os sugadores de energia que nos passam apenas a sensação de estarmos sozinhos, embora acompanhados.

Assim como o jornal que repete o que você já viu em outro lugar, as pessoas vazias são cheias repetições que nunca lhe fazem bem, mesmo que você não perceba. Os prejuízos são a perda de tempo e os aborrecimentos pelos minutos ou horas que lhe tomam com assuntos que em nada contribuem com o seu dia.

Todo mundo conhece alguém que, quando aparece, de longe já vem o pensamento: “era é só o que me faltava...”

E lá vem aquela pessoinha detestável desfilar um rosário de bla-bla-bla interminável. Elas parecem possuir um grude, uma cola, que gruda na gente, difícil de descolar. E lá vai a vassoura de ponta cabeça para trás da porta, mas nada da visita ir embora. Quando a abordagem é na rua, pior ainda. O relógio não anda, a hora não passa e a colegagem não dá sinal de falar tchau. E dê lhe histórias que você já conhece de cor e salteado, igual àquela porcaria de jornal que só publica coisas que você já viu na internet. Como diria a personagem de novela: Haja Deus!

Eu diria: Haja saco!

Mas, como tudo o que é ruim pode ser piorado, pior do que isso é se o chato (o chata) for você! Já pensou nisso?

Há pessoas que sabem que são chatas, porém, quando descobrem já não há mais como mudar. Alguns tipos de chatices não têm cura, por mais que se queira curar.

Nesses casos, só há uma saída: aceitar para doer menos. Assim, se esse for seu caso, aceite. E, como não dá para mudar, faça o contrário que é pra marcar território: tente o possível para ser cada vez mais chato. Já que nunca se lembram de você como uma pessoa legal, faça tudo para ser inesquecível como a chatice em pessoa. Talvez você ganhe o prêmio de chato (a) do ano!  Não seria legal?

Eu estou tentando, mas vou te contar: até pra chato é difícil ganhar alguma coisa.

Mas, lembre-se: mesmo ganhando um campeonato de chatice você nunca conseguirá ganhar da inutilidade daquele jornal que só publica o que você já sabia.

Será que é assim?

Passei sobre o passado passando como se fosse um só passo.

Apenas um passo é o que a vida nos parece no presente.

Presente que, como o passado, parecia que nunca passaria.

Como o vento de chuva que traz e leva as gotas embora, o hoje passa a ser ontem do mesmo modo que o dia se torna noite.

Dizem que o amanhã não existe, porque quando chega já é hoje.

Assim, aguardamos um dia que nunca vamos viver.

Não, não é um truque de palavras, mas uma dúvida que nem a mais sábia cigana pode enxergar na bola de cristal.


domingo, 4 de dezembro de 2022

Nada de nada

O nada não é nada

O nada nunca é nada

Por isso não sei de nada.

Não existe um pouco de nada

Não há um nada completo

Nada é cheio de nada

Nada é nada.

Nunca vi a cor do nada

Não senti o cheiro de nada

Nem nunca comi o nada.

Ainda não vi o nada

Porque nada sai do nada

Por isso não tenho nada

Acho que nada não existe.

Por isso não sei de nada.

 

Clóvis de Almeida

Ouvindo Raul

Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Não a do Raul, mas a sua mosca.
Aquela da metamorfose
Não a ambulante, mas a que mora na sua consciência.
Eu sou a mosca que pousou na sua sopa.
Não a da canção.
Mas a da opinião que você pensa que tem sobre tudo.
Eu sou a mosca.
Ou não sou nenhuma,
porque você mata uma e ela se junta às outras, fantasmas
zumbizando seu juízo. Juízo mal feito que
você fez, opinião errada  formada  sobre tudo.
Sobre o que é a razão, sobre o que você nem sabe o que é.
Eu sou a mosca que perturba o seu sono.
Sou o zumbizar que você ouve quando o sono se vai.
Sou a nuvem escura que enegrece sua velha opinião.
Eu sou a mosca que confunde sua existência.
Sou a mosca da bola de cristal que você comprou de um camelô,
Vizinho do sábio faraó que repousa nos livros da estante, ao
Lado de Dom Quixote.
Sou a mosca, mas, se chamarem, diga que eu saí, sem
Saber se é hora de sair ou de chegar.
Tudo é tão estranho que não sei como explicar.
Eu sou a mosca, sou você.

Estou me rifando para casar

Sou um rapaz de bom caráter, bonito, garboso, com todas as perfeições físicas que podem agradar qualquer mulher. Porém, não tenho dinheiro para o casamento. Por isso, me ofereço da seguinte maneira: Vou fazer um sorteio da minha pessoa num concurso de rifa com 600 números, onde podem concorrer solteiras, donzelas e viúvas, com menos de 32 anos de idade. O preço de cada bilhete é de mil reais. A feliz ganhadora terá direito à minha pessoa e ao prêmio da rifa, sendo que, para receber o dinheiro terá que me desposar primeiro. Os bilhetes estão à venda na casa de loterias no centro da cidade.

O anúncio acima foi publicado no jornal “O Spectador Brasileiro”, do Rio de Janeiro, com data de 05 de julho de 1824, com o título original de “Casamento por uma rifa”.

Como não é assinado por ninguém e com um chapéu de editoria nominado “Micelâneas”, é bem provável que seja uma brincadeira, ou “pilhéria”, como se dizia na época, um assunto publicado como “calhau”, texto qualquer para tampar um buraco a fim de fechar a página do jornal, já que foi estampado no final da última coluna.

Mas, chama a atenção pela ideia original. Nos dias de hoje, provavelmente não daria certo. Mas há 200 anos, quem sabe? Os casamentos tinham por obrigação o tal do dote, pago pelo pai da noiva. Assim, muitas moças pobres ficavam sem se casar por falta de dinheiro. E, se eram pobres, também não conseguiriam comprar a rifa, uma vez que o valor real pedido era de 20 mil réis, em 1824, algo em torno de 120 mil reais, no dinheiro de hoje, 2022.

O jornal de quatro páginas é a terceira edição do periódico publicado pela gráfica do governo imperial, com o objetivo de falar da vida diária do imperador Dom Pedro, de política, comércio e registrar fugas de escravos, algo comum na imprensa daquela época.

Fica a dica: está sem grana para se casar? Rife-se! Como sempre há uma tampa para uma panela, não vai faltar doida (ou doido) que arrisque um “zóio”. Vai que dá!

sábado, 3 de dezembro de 2022

Essa eu já sabia

Sabe aquele jornal que nunca traz nada que você já não esteja sabendo? Assim também são aquelas pessoas que nunca lhe somam nada. Convivem com você, estão todo tempo ao seu lado, usam tudo o que você compartilha com elas, mas nunca retribuem. Ao contrário, quando abrem a boca é para dizer que nada sabem, espalhando no ambiente uma vastidão de nada. São os sugadores de energia que nos passam apenas a sensação de estarmos sozinhos, embora acompanhados.

Assim como o jornal que repete o que você já viu em outro lugar, as pessoas vazias são cheias repetições que nunca lhe fazem bem, mesmo que você não perceba. Os prejuízos são a perda de tempo e os aborrecimentos pelos minutos ou horas que lhe tomam com assuntos que em nada contribuem com o seu dia.

Todo mundo conhece alguém que, quando aparece, de longe já vem o pensamento: “era é só o que me faltava...”

E lá vem aquela pessoinha detestável desfilar um rosário de bla-bla-bla interminável. Elas parecem possuir um grude, uma cola, que gruda na gente, difícil de descolar. E lá vai a vassoura de ponta cabeça para trás da porta, mas nada da visita ir embora. Quando a abordagem é na rua, pior ainda. O relógio não anda, a hora não passa e a colegagem não dá sinal de falar tchau. E dê lhe histórias que você já conhece de cor e salteado, igual àquela porcaria de jornal que só publica coisas que você já viu na internet. Como diria a personagem de novela: Haja Deus!

Eu diria: Haja saco!

Mas, como tudo o que é ruim pode ser piorado, pior do que isso é se o chato (o chata) for você! Já pensou nisso?

Há pessoas que sabem que são chatas, porém, quando descobrem já não há mais como mudar. Alguns tipos de chatices não têm cura, por mais que se queira curar.

Nesses casos, só há uma saída: aceitar para doer menos. Assim, se esse for seu caso, aceite. E, como não dá para mudar, faça o contrário que é pra marcar território: tente o possível para ser cada vez mais chato. Já que nunca se lembram de você como uma pessoa legal, faça tudo para ser inesquecível como a chatice em pessoa. Talvez você ganhe o prêmio de chato (a) do ano!  Não seria legal?

Eu estou tentando, mas vou te contar: até pra chato é difícil ganhar alguma coisa.

Mas, lembre-se: mesmo ganhando um campeonato de chatice você nunca conseguirá ganhar da inutilidade daquele jornal que só publica o que você já sabia.

 

Clóvis de Almeida 2022 

domingo, 27 de novembro de 2022

Eu comigo mesmo


O que você tem feito de bom?
Está aí uma boa pergunta.
Sinceramente, não sei responder.
É que não sei o que é bom.
Bom para quem?
Talvez para quem receba a minha bondade.
Mas será que seria bondade?
O que de bom você faria que não fosse para
receber algo em troca?
Não sei.
Mas será que eu faço isso?
Claro que faz.
Mas, então não é bondade.
É uma troca.
Ora, troca de bondades.
Dou uma e recebo outra.
Mas isso é justo? Não é hipocrisia?
Acho que não. Troca justa.
Então, o que tem feito de bom?
Sabe que eu não sei. Depende do que é bom.
Bom para quem? Para mim ou para quem recebe?
Para os dois.
Acho mesmo é que preciso parar de conversar sozinho.

As pedras

No meio do caminho tinha uma pedra.
Drummond já falou isso.
Mas também disse que havia uma pedra no meio do caminho.
Interessante é que ele avisou que havia uma pedra.
O poeta escreveu que nunca esqueceria disso.
Claro, muito difícil esquecer uma pedra no caminho!
Eu também não esquecerei que no caminho havia uma pedra.
Pior: o caminho agora tem mais pedras que antes.
Há pedras no caminho, não as de Drummond, mas as minhas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Qualquer um é mais importante que um sabugo

 

Tentei pensar como seríamos sem os outros.
Não como se sozinho fôssemos no mundo.
Mas, sem a satisfação que damos até no pensar.
Nada fazemos sem imaginar o que dirão os outros.
Até para os pensamentos, imaginamos o juízo que farão.
Nada fazemos para apenas nós mesmos.
Tudo é feito para alguém dar nota, por mais
que fujamos dessa realidade.
Não nos vestimos para nosso juízo,
vestimo-nos para os gostos alheios, pois a moda
não nos pertence.
Até o penteado é ditado por quem nos vê, não
para nossos olhos ao espelho.
Não fazemos selfies para a intimidade.
Tiramos retratos para sermos vistos por alguém, para sermos admirados, por mais que a consciência não reconheça.
A foto que mostra o que realmente somos é deletada.
Ficam apenas as que mostram o outro de nós
que gostaríamos ser.
Não escrevemos para nos atirar pedras. Nos descrevemos
para ressaltar nossos orgulhos. Não demonstramos a unha
suja do pé, mas o sapato bem lustrado.
Não destacamos as contas atrasadas, mas as compras
que acabamos de fazer.
Não falamos dos tombos que levamos,
mas colocamos em evidências as vantagens
que inventamos.
Não escrevemos para fazer leitura amanhã. Colocamos
em letras o que imaginamos que os outros vão gostar.
Esse é o desafio da vida.
Pior se estivéssemos felizes com o que somos,
porque se assim fosse, não haveria prazer
em mentir para nós mesmos, imaginando
que todo mundo acredita.
Como bem disse Carl Turdey: “Qualquer um
é mais importante que um sabugo”.
Não sei quem é esse Carl, mas foi o nome mais legal
que me ocorreu para não assumir
uma frase idiota.
Clóvis de Almeida

domingo, 16 de outubro de 2022

Todo mundo é feliz no Facebook

 

Estou tão feliz! É mentira, mas no Face todo mundo é feliz, bonito, ganha bem, come carne, ri de tudo e não tem boletos. Esta é uma das frases de passatempo que escrevi no Facebook, cujo tema é bastante debatido por ser a rede social uma tela de tudo aquilo que muitas pessoas gostariam de ver de si próprias, mas que não refletem a realidade. É a eterna busca da felicidade, mesmo que seja de mentirinha.

Muita gente já escreveu sobre isso e não tenho a pretensão de filosofar no assunto, nem de ser inédito. Mas, vendo as notícias sobre a produção de vacinas contra o coronavírus, em 2020, fiquei imaginado o trabalho que os cientistas estavam tendo em conseguir algo que fosse realmente motivo de se orgulhar, não pelo ineditismo do ato ou do estrelato que pudesse gerar, mas pelo bem que poderia causar em toda a humanidade. Trabalhar e criar uma arma para destruir um inimigo tão terrível, como esse vírus do corona, é uma ação tão grande como quando o Superman ou o Batman salvam o mundo desviando um super meteorito que iria destruir a terra.

Como em toda e qualquer história da civilização, e não podia ser diferente, temos poucos heróis para tanta gente. Somos bem servidos de mentes inteligentes que trabalham inventando coisas, mas, como sempre, a maioria tem o pensamento voltado para o social, desenvolvendo meios de como fazer as pessoas se comunicarem, seja no âmbito pessoal para os simples relacionamentos, seja para as transações comerciais, onde se dar bem na arte de vender e ganhar dinheiro é o sonho da maioria. A cada minuto, surge alguém com uma “grande” proposta para ficar rico trabalhando pela internet. Poucos não se dão conta de que nada é tão simples e fácil como querem nos fazer crer.

Temos pouca gente desenvolvendo tecnologias que não levam ao brilho dos holofotes, como o dos engenheiros que estão desenvolvendo técnicas que captam energias do sol, do vento e das ondas do mar. O que fazem os cientistas em benefício de novas vacinas e remédios é muito pouco mostrado.

Talvez pela falta das luzes da ribalta é que faltam gente no combate ao câncer, à aids, ao coronavírus e ao que hoje chamamos de “simples gripe”. Basta dizer que ainda não existe cura para a herpes, fibromialgia ou vitiligo. A queda de cabelo é outro problema que deixam os carecas apenas com tratamentos caríssimos, que nem sempre dão certo.

Por outro lado, os aplicativos de relacionamentos pessoais estão cada vez mais sofisticados. O WhatsApp foi uma revolução, mas já está ameaçado por concorrentes, que dizem ser melhores, como Telegram, Viber, Hangouts, Kakao Talk, Groupme ou talvez outro nascido nas últimas 24 horas. Esse tipo de invenção surge com velocidades incríveis. Por isso, o homem se comunica melhor a cada dia, mas as soluções poderiam ser divididas por necessidade e não apenas pelo lucro imediato. Porém, não há como mudar isso enquanto o homem buscar aplausos em vez do orgulho de apenas fazer o bem.

(Texto para o Facebook 2020 - Por Clóvis de Almeida)

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

É preciso lavar as mãos depois de balançar

Corre pela internet mais um daqueles e-mails com curiosidades que não sabemos realmente se são úteis ou o contrário. Desta vez o alvo são as bolsas das mulheres, que, por serem postas em tantos lugares, como, chão de banheiro, carregam um potencial gigante de elementos infectantes e nocivos à saúde.

Não deixa de ser verdade, mas se partimos para preocupações tão detalhistas do nosso dia a dia, chegaremos à conclusão que o melhor é ficar em casa, dentro de uma redoma de vidro, sem nenhum contato com o mundo exterior.

Porém, alguns costumes no levam mesmo a pensar melhor. Tenho minhas dúvidas quanto ao número de pessoas que lavam as mãos depois do que fazem no banheiro. As mulheres têm a vantagem, se quiserem, de não precisar tocar no instrumento do “xixi”, depois de se aliviarem. É só esperar pingar tudo e vestir a roupa novamente. Se pinga tudo, não sei. Já o homem não consegue fugir da necessidade de pegar no pinto pra fazer o xixizinho.

Supondo que ambos, mulher e homem, tenham tido contato com o órgão urinário, precisam lavar as mãos. Caso não o façam, podem expor urina, bactérias e até vírus, ao tocarem outras pessoas.

Numa festa, por exemplo, é um entra sai de banheiros sem fim. Depois de vários goles, os homens só balançam o “pingolim” e voltam pra garrafa. Nessas balançadas, sempre uns respingos sobram para as mãos. Não é preciso dizer o que acontece em seguida.

Imagine o que ocorre numa comemoração de aniversário quando o aniversariante recebe cumprimentos de dezenas de pessoas. Num casamento, centenas de convidados pegam nas mãos dos noivos. Como saber quem lavou as mãos depois de tocar o “xixi”? Nesse troca-troca de mãos, milhares de seres microscópicos são repassados. O final dessa transação anti-higiênica é no jantar e no repartir do bolo. Não me lembro de ter visto noivos irem ao banheiro depois da igreja, mas já vi locais da festa sem pia para lavar as mãos. Só esfregar nas calças não adianta...

Quando cumprimentamos alguém na rua, no trabalho, numa confraternização, não temos como saber onde essa pessoa colocou as mãos. Num toque simplesmente cordial podemos ter contato com milhares de agentes nocivos, como a gripe, conjuntivite e outras doenças. Se não fosse verdade, não teríamos sido orientados a passar álcool nas mãos durante o medo coletivo da gripe suína, em 2009. Por pouco não chegamos a uma histeria naqueles dias. Há lugares públicos que até hoje mantém o frasco de álcool gel à disposição.

Riscos existem, mas não podemos fazer disso uma obsessão por higiene. Conheço pessoas que, bem antes da gripe do porco já tinham uma mania de limpeza quase doentia. Cumprimentam as pessoas com as pontas dos dedos e lavam as mãos com sabão assim que se vêem livre, independente da pessoa a quem cumprimentou. Chega a ser engraçado.

Há ainda a história de um político que leva um litro de álcool no carro para “desinfetar” as mãos depois de cumprimentar os eleitores durante a campanha eleitoral. Mas isso vou contar outro dia.

Temos então dois extremos; de um lado, os com mania de limpeza ou com medo de se contaminar, chegando até a serem portadores do transtorno obsessivo-compulsivo. Do outro, gente que não se preocupa em lavar as mãos nem para comer. Certo estão os japoneses, que não são muito dados ao cumprimento de mãos. O abaixar de cabeças é mais respeitoso, elegante e não contaminante. Devíamos aprender com eles.

No mundo digital somos todos piratas

As leis que protegem os direitos autorais são claras ao tornar infração ou até mesmo crime o uso não autorizado da criação alheia. Baseado nisso, fica evidente que o simples ato de escrever algumas linhas em um programa de computador cujo software não foi comprado e, que não seja de uso livre, nos torna infratores, piratas e, em alguns casos, criminosos. Talvez eu esteja exagerando na definição de um ato tão simples, como por exemplo, escrever no Word da Microsoft. Mas se é proibido usar sem autorização, é pirataria, infração ou crime!

Milhares de empresas utilizam os programas do Bill Gates sem pagar nada. São programas baixados pela internet, comprados no camelô da esquina ou cedidos por um amigo que também possui, de forma sorrateira, os famosos editores de imagem e áudio, como o Photoshop, Sound Forge, Adobe Premiere e tantos outros. Só no pacote do Office da Microsoft são nove programas de aplicações variadas. A série Windows é tão pirateada quanto os discos de músicas. Um estudo recente apontou que mais de 90% dos computadores no Brasil funcionam com Windows pirateado. Então, entre as pessoas que se utilizam de computadores, 90% são infratores ou usam de produtos pirateados sem saber.

Aquela foto baixada no Google e que ilustra ricamente o trabalho da faculdade ou do primeiro grau pode ser na verdade uma cópia ilegal. Mesmo estando disposta abertamente na rede mundial, talvez não disponha de autorização para uso, estando sujeita à reclamação de direitos por parte do autor.

A cada segundo alguém copia partes de textos ou uma obra inteira para apresentar como trabalho escolar, na maior cara de pau. Nem sempre o professor confere e o aluno ganha nota 10 nas costas de quem postou um suado serviço na internet.

Há variados cursos que ensinam como trabalhar com o Photoshop, Corel Draw, Excel, AutoCAD, Word e tantos outros programas profissionais fantásticos, no mundo da editoração eletrônica. Mas quantos desses alunos pagam pelo programa, comprando de um distribuidor autorizado? Para termos uma ideia, a licença mensal do Photoshop custa 90 reais. No entanto, são raras as pessoas ou empresas que pagam por esse que é o mais famoso dos editores de fotografia.

É raro também quem não tenha um disco ou pendrive “piratinha” da dupla ou banda preferidas ou games em casa, no porta luvas do carro ou no celular.

A Lei dos direitos autorais, no Artigo 104, afirma que “quem vender, expuser a venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator”. Portanto, quem baixa na internet ou usa, tem culpa, tanto quanto quem produz ou vende a pirataria.
Enquanto existir vistas grossas para a lojinha e o camelô que comercializam a pirataria, estaremos irresistivelmente condenados a praticar a infração ou crime contra os direitos autorais, mesmo como co-autores, cientes ou inocentes do ato. Mas pior do que isso: Estamos sujeitos à pirataria da forma mais doída, que é quando nos roubam, tirando de nós o fruto de nossa intelectualidade. O produto de um trabalho é como um filho e quando nos tiram, dói na essência, dói na alma. É parte de nós surrupiada sem dó.


De artistas a picaretas

1976

Nos meus tempos de menino, o caminho da volta da escola pela Avenida Tupãssi empoeirada tinha uma parada obrigatória todos os dias: A Farmácia Estrela do seo Ivo Müller e dona Dalva. Num dos cantos de entrada, uma vitrola daqueles tempos rodava sem parar um dos discos do humorista Barnabé. Decorei todas as suas piadas, que até hoje são repetidas por novos humoristas. Penso que o show de humor gratuito era uma estratégia para atrair a freguesia, que se juntava numa estreita faixa de calçada sem calçamento. Era terra mesmo. Os meninos se sentavam na soleira da porta do salão de madeira e todos riam com as trapalhadas do caipira que não nunca veio em Assis. Morreu cedo, em 1968, de ataque cardíaco, enquanto fazia show num circo. Um irmão dele deu sequência na carreira, mas não com a mesma graça e sucesso. Outros o imitaram, mas sem fazer rir como o original fazia. Um deles foi o chateaubriandense Agenor Barbosa, antes de adotar o nome artístico de Paulo de Paula, que fazia shows pela região  com o nome de Barnabézinho.

A Assis dos anos 60 e 70 era uma rota de artistas que se apresentavam no Oeste do Paraná. Por aqui, pernoitaram muitos nomes famosos nas pensões e hotéis simples de uma cidade que crescia sem parar, mas não tinha asfalto. A chuva e o barro seguravam os viajantes até por semanas. Muitos “medalhões” fizeram suas cantorias nos bares da cidade, de graça, tomando cachaça, enquanto a chuva caia. A zona do baixo meretrício, conhecida Casa das Primas, também era ponto dos artistas. Nem sempre para cantar. O antigo Bar Tupãssi e muitos outros foram palcos de Brasão e Brasãozinho, Liu e Léo, Tião carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, Belmonte e Amaraí, Mococa e Moraci, Léo Canhoto e Robertinho, Milionário e Zé Rico e, até Teodoro, ainda sem o Sampaio.

Léo Canhoto e Robertinho fizeram um show em um circo armado no local onde hoje está a torre da Telepar. Ficou gente pra fora, tamanho o público que foi assistir à peça teatral da música “Jack, o matador”.

Tonico e Tinoco se apresentaram em outro circo, também no centro da cidade. Depois vieram em 1972, para a campanha política do Almério, num show para milhares de pessoas, que ficou na história de muita gente.

Boa parte das dezenas de artistas que passavam por “essas bandas” não tinha fama e nem era artista de verdade. A maioria fazia parte da turma de picaretas que rodava o Brasil fazendo show de rua ou dando calotes no comércio. A cada 15 dias tinha um “homem da cobra” vendendo remédios homeopáticos em praça pública. Com um microfone sujo e ensebado de cuspe, pendurado no pescoço, reunia gente chamando por um alto falante jogado no chão. Enquanto demonstrava um produto num vidro, prometendo “curar tudo”, batia com uma vareta numa caixa, dizendo que ali havia uma cobra sucuri de 10 metros, um peixe elétrico ou um jacaré do pantanal. A multidão curiosa esperava até o fim para ver a surpresa, enquanto um ou outro comprava o remedinho com cheiro de hortelã, que não prestava pra nada. Quando o público começava a esvaziar plateia, o homem que dizia ser representante de laboratórios tirava um lagarto da mala e garantia que era um legítimo filhote de crocodilo da Amazônia. Quando muito, mostrava um peixe elétrico que acendia uma lampadazinha na ponta de dois fios que ele encostava no pobre bichinho. E a plateia adorava aquilo. Coitado do peixe!

As rádios do interior sofreram muito com os picaretas do microfone que passaram por nossa história. Vinham de longe e ficavam alguns meses, tempo suficiente para comprar fiado no comércio e sumir do mapa para sempre. Anoiteciam e não amanheciam, deixando um rastro de contas a pagar, de boteco à loja de móveis, passando pelo hotel e a mercearia que ficavam a ver navios.

O primeiro exemplo foi o próprio gerente que inaugurou a rádio Jornal, em 1978. Um tal de Lima veio de Brasília, a Capital, e levou embora uma Brasília novinha, o carro. Carregou ainda na mudança a mobília toda de uma casa montada, comprada no crediário e garantido pelos donos da rádio, que, além de perderem o automóvel do ano, tiveram que pagar as lojas, o mercado e o aluguel do malandro que anoiteceu e não amanheceu.

Tem ainda a passagem de um conhecido locutor vozeirão, bom de microfone pra caramba, que se associou a outro picareta local, metido a cantor. Ambos “bolaram” um festival de calouros e no dia do show fugiram com a grana dos ingressos, assim que o salão paroquial lotou de gente.

Outro, muito bom noticiarista, veio de longe pra aplicar o velho golpe da pomadinha. Num vidrinho de remédio injetável, que recolhia no lixo de farmácias, ele colocava vaselina líquida e vendia a idosos como excitante sexual. Ele abordava os velhinhos (e alguns jovens), dizendo que o era só passar o remedinho no bilau e viver horas de prazer com o moral “alto”. Dezenas de trouxas acreditavam e o malandro vendi vaselina que nem água no deserto. Afinal, era um locutor da rádio que estava vendendo, palavra que tinha crédito. Pior é que ouvi depoimentos de que o negócio funcionava mesmo. E não adiantava dizer à vítima que o efeito era só psicológico.

Em fim de ano chovia locutor de tudo o que era canto vendendo mensagens de Natal. Os caras já traziam os textos prontos, gravados em um rolinho de fita de rolo, que só rodava na rádio e numa fitinha K7 para mostrar aos lojistas. Era difícil uma vítima que não comprava.

Quem pensa que os picaretas acabaram, engana-se. Mas isso é história pra outro dia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Por quê Assis Chateaubriand?

 


Trecho do livro "Assis Chateaubriand - eu e a cidade", do jornalista Clóvis de Almeida

No segundo capítulo do meu livro de crônicas sobre a cidade de Assis Chateaubriand, eu narro a origem do nome do município que completa 56 neste 20 de agosto de 2022.

Em 2010, levei ao Dr. Oscar o livro de Laércio Souto Maior, "História do município de Assis Chateaubriand". Depois de ler as partes que eu grafei para que ele comentasse, fez diversas observações. Em um dos trechos, sobre a as razões de darem o nome de Assis Chateaubriand à cidade, Souto Maior escreveu: “Oscar Martinez afirma que a homenagem foi por causa da dedicação do jornalista pelas questões agrícolas e sua grande amizade com ele”.

Martinez corrigiu:

— Nada disso. Nós inventamos uma história para o Chateaubriand. Dissemos que o povo todo queria homenageá-lo e, numa reunião, decidiu-se que o nome do município seria em homenagem a ele. E ele acreditou e aceitou. Mas foi relutante, porque, pela vontade do Velho Capitão, a cidade levaria o nome do bandeirante Raposo Tavares — confessou Oscar Martinez.

Assim sendo, o nome do município de Assis Chateaubriand nasceu de uma mentira.

Explorei bastante a origem do nome do município, conversando com quem deu todos os nomes que temos até hoje: Oscar Martinez.

Em uma entrevista exclusiva, na casa dele, em Curitiba, onde me recebeu, falamos de tudo e ele não se negou a responder nenhuma pergunta.

Nas quase duas horas de entrevista gravada em vídeo com Oscar Martinez estão os detalhes da mentira que Dr. Oscar e o jornalista David Nasser aplicaram no velho Assis Chateaubriand para que ele aceitasse que o nome dele fosse dado ao município que nascia no sertão paranaense. É que Chateaubriand não aceito a ideia e sugeriu que a nova cidade levasse o nome do bandeirante Raposo Tavares. Assim Martinez narrou:

— Eu fiquei amigo do David Nasser, que era um jornalista conhecidíssimo na época, grande jornalista. E o Assis Chateaubriand havia sido acometido de um enfarte, um problema cardíaco. O David, numa dessas reuniões, me disse:

— Que nome você está dando para aquela cidade que está fundando lá no Paraná?

Eu respondi:

— Olha David, o pessoal já está lá escolhendo nome. Uns já chamaram de Tupãssi. Estão inventando lá.

O David me perguntou:

— Por que você não dá o nome de Assis Chateaubriand? O Chateaubriand acabou de ter um problema cardíaco e está indo para os EUA, não sei se volta e é um grande homem. Escreveu muito sobre a agricultura no Brasil, sobre o desenvolvimento agrícola, etc. Acho que seria uma justa homenagem.

Eu respondi que estava bem. Então vamos dar o nome de Chateaubriand para a cidade, disse a ele.

O David sentou-se à máquina de escrever, ‘catando milho’, e fez uma carta, mais ou menos nos seguintes termos: Embaixador Assis Chateaubriand, o povo de uma região que se funda no Norte do Paraná, reunido numa grande assembleia popular, acolheu o seu nome para patrono da cidade de Assis Chateaubriand. Ele me mandou assinar, eu assinei e a carta foi enviada ao Chateaubriand — relatou Martinez.

Assim que Dr. Oscar me contou esse “detalhezinho”, eu perguntei a ele:

— Então era tudo papo furado?

Sem hesitar, e rindo, na ‘lata’ ele confirmou:

— Papo furado... E prosseguiu.

— Eu peguei e assinei a carta. Ele (Nasser) pegou a carta e levou ao Chateaubriand, que estava embarcando para os EUA.

Daí uns 20 dias, o Chateaubriand voltou, chamou o David e falou: David, chama aquele espanhol aqui, o Oscar Martinez, que eu quero conhecer ele — contou Oscar, orgulhoso da história.

Encontro de Oscar com Chateaubriand

Depois de ter aceitado ser o homenageado com seu nome no Oeste do Paraná, Chateaubriand chamou Oscar Martinez para uma conversa. Ambos moravam em São Paulo.

Oscar é quem narra o encontro:

— Fui lá na residência dele, chamada de Casa Amarela, quando ele me perguntou:

— Por que é que você deu o meu nome numa cidade do Paraná? Eu não conheço aquela região, não fiz nada por aquilo lá. Por que você deu nome de chateaubriand?

Eu respondi assim:

— Olha doutor Assis, eu dei o nome porque o senhor é um grande homem, uma figura ilustre no Brasil inteiro. Todo mundo conhece o valor do seu trabalho, pelo Brasil. Então, eu acho que foi uma coisa muito boa.

Chateaubriand pergunta:

— Por que você não dá o nome de Raposo Tavares?

Eu falei:

— Ah, Raposo Tavares? Lá ninguém sabe quem é Raposo Tavares. E agora já é tarde, porque o pessoal já adorou o nome de Chateaubriand, não há jeito de voltar pra trás.

Então, ficou consagrado o nome de Assis Chateaubriand — complementou o Doutor Oscar.

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terça-feira, 16 de agosto de 2022

Já não se brinca mais como antigamente

 

Vejo como meus netos usam o tempo hoje e tento me imaginar criança como eles em meio a tanta tecnologia que não havia há 50 anos. Eles se levantam ligados na internet. Enquanto um busca o telefone celular da mãe, o outro corre ligar a televisão no Youtube ou Netflix, quando não o vídeo game. Ambos vão atrás de jogos em desenhos animados, onde a violência é o prato principal. Já percebi que personagens cortando a garganta de outro, banhados em sangue, são os preferidos. Têem brinquedos aos montes, mas só os usam quando chegam novos, embrulhados em presentes. Uma novidade que não dura meia hora e já vai para a caixa onde guardam o que já não chama mais a atenção.

E assim vai até na hora de tomar banho para irem à escola. Na volta, tudo se repete: celular ou televisão, ou seja, telas até na hora de dormir, ato que só fazem depois de a mãe perder a paciência e ameaçar com chineladas.

Adoram vir à minha casa, mas sei que é não por minha causa, mas porque os deixo mais à vontade com o controle remoto da tv, ou no computador para assistirem a seus programas preferidos.

Eles não fazem a menor ideia do mundo que vivi, quando criança como eles, aos seis e nove anos de idade.

Lá pelos anos de 1967, até 1972, eu e os meninos da época nos divertíamos com brinquedos que as crianças de hoje nem olhariam. Eu me levantava bem cedo, antes de nascer o sol. Minha mãe já havia feito o café, que me dava junto com uma fatia enorme de pão. Nos dias frios, me sentava na saia fogão à lenha para esperar a hora de ir pra escola.

Voltava perto de meio-dia, varado de fome, pronto pra devorar uma marmitona, que me esperava no forninho quente. Comia correndo, como se estivesse atrasado pra pegar algum ônibus. A razão era uma só: brincar. Cada dia um destino diferente.

Era comum percorrer a mata perto de casa, à procura de arapucas que outros meninos haviam armado para pegar passarinhos. Algumas estavam desarmadas com infelizes pássaros presos, traídos por algumas quireras. Era indescritível o prazer de soltá-los, para em seguida quebrar as armadilhas feitas de ripas ou gravetos de madeira. Bastava uma pisada bem forte para destruí-las. O som das arapucas se quebrando ainda estão nos meus ouvidos como um hino à liberdade. Muitas vezes, fui flagrado pelos donos das armadilhas fazendo tal serviço. Mas nunca me pegaram. A magreza ajudava na fuga, principalmente ao pular troncos caídos.

Certa vez, numa dessas carreiras, me esfreguei todo por sobre um desses troncos, que me obrigara a pular por cima. Escapei, mas quando parei para recuperar o fôlego, percebi que estava todo lambuzado com a merda que algum desgraçado havia feito na árvore caída.

Já em casa, levei umas boas varadas. O mais difícil foi explicar para minha mãe que eu não havia rolado na bosta por diversão.

Se eu contar essa história aos meus netos, tenho certeza que eles vão dizer: Que diversão de merda! Preferimos pular obstáculos no vídeo game.

Pode ser. Mas, mesmo cagado, eu acho que vivi mais feliz, pois tenho história pra contar, nem que seja pra mim mesmo.

 

sábado, 13 de agosto de 2022

Não tenho que ser exemplo de nada

Muitos livros de autoajuda trazem ensaios que nos sugerem os mais variados caminhos do sucesso. Aqueles conselhos que se copiam e vão sendo passados em frente, por autores conhecidos ou principiantes na redação tentando ganhar dinheiro na arte de motivar pessoas.

A maioria não passa de palavras ao vento, pois são apenas constituídas de frases manjadas que só funcionam na teoria, porque a prática não é constituída de sonhos e que, por isso, não tem espaço para sonhadores.
Você pode se perguntar se sonhar é errado. Não, quando se sonha dormindo. Acho que sonhar acordado é um defeito que pode ser corrigido. A palavra certa seria planejar. Sonho é uma névoa, uma foto em preto e branco desfocada, onde as imagens não têm definição. Já o projeto é algo concreto, prático e objetivo, nítido e cheio de detalhes, com medidas, formas, cores e até nomes.
Assim sendo, quando dizem a você para não ter medo de sonhar, não sonhe, faça projetos, defina metas. Se não dar certo, lembre-se: você não tem obrigação de ser exemplo de nada a ser seguido, faça o possível, mas no que estiver ao seu alcance. Não há a menor necessidade de servir de exemplo, além daquilo que o normal já lhe cobra. Não queira ser melhor que outros para não se decepcionar. Se alguém é melhor que você, paciência, que seja.
O mais importante é que você não precisa chorar pelos cantos só porque não passou no vestibular, porque perdeu a vaga de emprego para alguém, a pessoa que você gosta não lhe ama, uma doença não sara, morreu alguém querido ou tudo parece dar errado.
Coisas ruins fazem parte da vida, assim como as coisas boas. Temos mania de contabilizar desgraças, mas nem nos damos conta das graças de poder ouvir os pássaros, olhar o nascer do sol, ou caminhar com as próprias pernas, quando muitos dariam a vida para, pelo menos, poder andar novamente.
Quando se trata da existência, nada pode ser no galope. No ônibus da vida, além do cobrador e do motorista, tudo é passageiro, tudo passa e o que nos ocorre também passa. Podem deixar marcas profundas, podem até arrancar lascas, mas passa.
Os Salmos já explicam que “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. Isso significa que nada é para sempre. Se a alegria acaba, a tristeza também. Levante o rosto e diga: O Senhor é o meu Pastor e não me faltará!
Verás que a resposta vem de Deus e o novo dia que tanto espera finalmente nascerá.
Talvez você esteja pensando: agora o cara viajou na maionese! Não, me modernizei, fiz um “up”, mas sem deixar de ser retrô, vintage, cafona, nerd, talvez um mané fashion. Que tal?

//////// Por Clóvis de Almeida ////////////////
A foto é minha - Lago de chegada do Horto Municipal - 2009

terça-feira, 9 de agosto de 2022

As vozes da cidade no tempo


Em algum canto de minhas lembranças ainda ecoam os anúncios e as músicas nos alto falantes pendurados nos postes ao longo da Avenida Tupãssi, no sotaque dos anos 60, onde a música de viola e a orquestra de Billy Vaughn davam o tom de cada dia, do alvorecer ao fim da tarde, culminando com a tradicional Ave Maria das seis, onde a fé era muito maior que hoje.

Aqueles dias foram o ponto inicial da comunicação em Assis Chateaubriand. Logo veio uma rádio clandestina e o jornal Clarim Chateaubriandense, que mais tarde se transformaria em dois: O Regional e O Jornal.

Os dias se passaram, a rádio pirata fechou e o alto falante dos postes retornou ao auge, até ser fechado com a chegada da Rádio Jornal.

Já era o fim dos anos 70 e o rádio vivia os últimos suspiros do glamour, onde o locutor dava autógrafos e recebia carta com dinheiro no envelope.

O requinte do rádio FM chegou na década seguinte com a Rádio Pitiguara, abrindo caminho na frequência modulada para uma nova emissora que assumiria boa parte da audiência regional. Era a Rádio Vale Verde que chegava sem avisar, mas fazendo um alarde nunca visto, tamanha a aceitação e sucesso que lhe acompanhou desde o primeiro minuto no ar.

Com a necessidade de expansão, em razão da grande audiência, a Vale Verde se instala em Assis, com estúdio, sede, mala e cuia. Assis Chateaubriand mais uma vez receberia a que se intitula Emissora da Família de braços abertos.

Nos quase 50 anos da história de Assis, muitas mídias vieram e se foram. Outras, pequenas, cumprem o papel da comunicação segmentada, seja em periódicos semanais, mensais ou na internet.

Em algum canto ainda ecoa o prefixo de abertura do “serviço de alto falante em gravações variadas”. Não é preciso ouvidos para ouvir. Para quem viveu as vozes da cidade no tempo basta lembrar. 

A música de abertura invadia a cidade deixando tudo mais importante do que realmente era, fazendo-nos prestar atenção nos pássaros, nas pessoas indo ao trabalho, no barulho da hora e nas mães aos berros com o menino atrasado para a aula. O “bom dia” era a certeza de que éramos felizes, mas não sabíamos.

Tudo isso contribuiu para revelar grandes nomes da comunicação, vozes do rádio. Muitos foram para outros endereços distantes e alguns já moram no além. Dos pioneiros do microfone em Assis Chateaubriand, que faziam comunicação antes de 1980, não há nenhum na ativa. Ou se aposentaram, ou morreram.

O universo vai ecoar pela eternidade os sons dos postes, mantendo para sempre as razões, alegrias ou tristezas de um povo que respirava dias melhores, na esperança de um dia viver melhor na cidade que plantaram. 

“Com esse prefixo musical encerramos os trabalhos de hoje para voltar amanhã”, dizia o locutor, empostando a voz num microfone antigo, avisando a gente que o dia terminara. Era um misto de tristeza em ver o sol ir embora com a alegria de saber que no dia seguinte a música do poste nos alegraria com o alvorecer de mais uma manhã.